EDUCAÇÃO PARA CONVIVÊNCIA
E A COOPERAÇÃO
MS. JEFEFRSON CAMPOS LOPES (ver
currículo)
1.
INTRODUÇÃO
Partindo da premissa que para uma educação
voltada para a convivência e cooperação seja realmente concretizada,
precisamos observar alguns pontos que caracterizem este processo.
Para tal, a convivência é uma condição
importante da vida cotidiana, relação esta que, na medida em que
buscamos a melhoria da qualidade interpessoal e intrapessoal, podemos desenvolver
e aperfeiçoar competências na perspectiva de viver juntos.
Com relação à cooperação, num primeiro
momento temos que identificar o quanto os nossos comportamentos e atitudes
estão condicionados e postos em prática, em situações
que favoreçam uma posição que nos coloquem numa constante
competição, gerando confronto, e em que sejamos vistos como
vitoriosos e considerados os melhores por tal resultado.
Neste processo ou jogo da vida, precisamos resgatar e
valorizar atitudes e comportamentos mais humanos por meio de uma visão
um pouco diferente da que estamos acostumados a ver quando realizamos esse jogo
da vida, de maneira que possamos experimentar novas alternativas que mostrem
que é possível existir outros caminhos que possam ser incorporados
de maneira espontânea e autêntica com a devida importância
de sermos, essencialmente, o que somos e valorizarmos o que fazemos.
2. PILARES DA EDUCAÇÃO
O conceito da Educação, ao longo de toda
a vida, aparece como uma das chaves de acesso ao século XXI.
A literatura existente aborda diversos conceitos sobre
educação, mas neste caso, gostaríamos de citar uma educação
que se baseia na função de preparar na autoformação
do cidadão. Segundo Morin (2001), o objetivo da educação
não é o de somente transmitir conhecimentos, mas criar um espírito
para toda vida, onde ensinar é viver em transformações consigo
próprio e com os outros.
Baseando-se nesta citação, é possível
afirmar que um dos fatores que garantem essa educação é fundamentado
em palavras, como cooperação e autonomia.
Partindo dessas palavras, encontramos no dicionário de língua
portuguesa suas definições para podermos entender melhor o
seu significado:
COOPERAÇÃO: trabalhar e ajudar para alcançar um objetivo
comum.
AUTONOMIA: faculdade de governar por si só.
Segundo Orlick (1989, p.105), a cooperação é "uma
força unificadora, que agrupa uma variedade de indivíduos com interesses
separados numa unidade coletiva" e, segundo Freire (1996), autonomia é a
prática da liberdade.
Lendo estas definições objetivas (dicionário) e citações
(autores), acrescentamos que a educação proposta por meio dos
Pilares da Educação tem em sua forma de autonomia um comando
da consciência em que, por meio da cooperação, podemos
criar uma rede de funções com desempenhos relacionados uns
com os outros.
Dessa forma, atuar em educação é,
antes de tudo, uma jornada ao longo de um conjunto de respostas organizadas em
torno dos quatro Pilares da Educação, apontados pelo relatório
da UNESCO (Delours, 1999, p.101-2), no sentido que estes pilares possam transformar-se
em um instrumento que facilite a sua implementação:
Aprender a conhecer: significa combinar a cultura geral
com as possibilidades do aumento dos saberes num continuo exercício do
aprender a aprender para beneficiar-se das oportunidades oferecidas pela educação
ao longo de toda a vida.
Aprender a fazer: a fim de poder agir, não somente
sobre uma qualificação profissional, mais sim ampliando suas competências
no âmbito das diversas experiências sociais ou de trabalho.
Aprender a viver juntos: participando e cooperando na compreensão
do outro e na percepção das interdependências, realizando
projetos e preparando-se para gerir conflitos e no respeito pelos valores
humanos, da compreensão mútua e da paz.
Aprender a ser: contribuir para o desenvolvimento mental,
corporal e espiritual a fim de atingir uma realização completa
com cada vez maior capacidade de autonomia de cada interser.
Sendo assim, o saber, o saber fazer, o saber conviver
juntos e o saber ser constituem quatro aspectos, intimamente ligados, de uma
realidade de experiência vivida e assimilada por momentos de compreensão
e criação pessoal.
Para tal, a educação deve desenvolver e
formar cidadãos com estas novas competências, que serão necessidades
fundamentais para a convivência entre os outros, partindo da condição
de estar cooperando para uma melhoria da qualidade de vida.
O JOGO
A discussão a seguir será sobre o jogo,
numa condição de vital importância e relevância que
exerce como forma e processo de aprendizagem. Nesse contexto, hoje, a maioria
dos filósofos, sociólogos, etnólogos, antropólogos
e professores de educação física concordam em compreender
o jogo como uma atividade que contém em si mesmo o objetivo de decifrar
os enigmas da vida e de construir momentos de prazer.
Sendo assim, Huizinga (1996, p.33) expressa a noção
do jogo como:
Uma atividade ou ocupação voluntária,
exercida dentro de certos e determinados limites, dotados de um fim em si mesmos,
acompanhados de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência
de ser diferente da vida cotidiana.
Assim, a alegria é a finalidade do jogo, em que,
quando esta finalidade é atingida, a estrutura de como se pode jogar assume
uma qualidade muito específica; torna-se uma ferramenta de aprendizagem
que mantém uma constância de forma a dar prazer e de continuar sendo
eterno.
Portanto, podemos verificar que o jogo é muito
importante, não só porque ficamos alegre ou nós dá prazer,
mas quando estamos vivendo-o, direta e reflexivamente, estamos indo além
da sua representação simbólica de vida.
De acordo com Brotto (1999, p.16), a idéia da
aproximação do jogo com a vida numa representação
do reflexo de um sobre outro é: "eu jogo do jeito que vivo e vivo
do jeito que jogo".
Nesse sentido, o jogo passa a ter a capacidade de desenvolver,
por meio dele, formas e contribuições para gerar talentos, aperfeiçoar
potencialidades e criar novas habilidades de conviver.
Um outro autor a ser destacado é Friedmann (1996),
que, baseando-se nos estudos de Piaget, afirma que o jogo pode ser utilizado
como forma de incentivar o desenvolvimento humano por meio de diferentes dimensões,
que são:
O desenvolvimento da linguagem: onde a jogo é um
canal de comunicação de pensamentos e sentimentos.
O desenvolvimento moral: é um processo de construção
de regras numa relação de confiança e respeito.
O desenvolvimento cognitivo: dá acesso a um maior
numero de informações para que, de modo diferente, possam surgir
novas situações.
O desenvolvimento afetivo: onde facilitem a expressão
de seus afetos e suas emoções.
O desenvolvimento físico-motor: explorando o corpo
e o espaço a fim de interagir no seu meio integralmente.
Partindo dessas dimensões, o jogo passa a ser
ensinado em duas formas e atitudes a serem tomadas:
1. Num jogar espontâneo, onde ele tem apenas o objetivo de divertimento;
2. Num jogar dirigido, onde ele passa a ser proposto como fonte de desafios,
promovendo o desenvolvimento da aprendizagem.
Sendo assim, ao utilizarmos o jogo como uma atividade
de desenvolvimento humano, permitimos uma participação dessa forma
de aprendizagem, com o compromisso do buscar pedagógico, transformando
e contextualizando-o num exercício crítico e consciente do aprender.
JOGOS COOPERATIVOS
Os Jogos Cooperativos surgiram com a constante valorização
dada ao individualismo e a competição das quais foram condicionadas
e aprendidas como única e melhor forma de caminho existente.
Sendo assim, existem duas definições que
foram mal interpretadas e divulgadas durante várias décadas que
contribuíram para esse caminho:
A primeira é de Charles Darwin, que fala da seleção
natural, em que as maiorias das pessoas dizem que o melhor está na sobrevivência
do mais forte e mais apto para vencer, afirmando, ainda, que, para a raça
humana, o valor mais alto de sobrevivência está na inteligência,
no senso moral e na cooperação social e não na competição.
Como podemos avaliar, várias pessoas utilizaram
a palavra sobrevivência como forma de promover sempre o melhor capacitado
por meio de uma competição, da qual somente um ganha e não
na forma que deveria ser, ou seja, de compartilhar o papel de cada um numa unidade
inter-relacionada.
A segunda é do francês Pierre de Coubertin
(idealizador da nova era olímpica), que diz que o mais importante não é vencer,
mas tornar parte; importante na vida não é triunfar, mas esforçar-se;
o essencial não é haver conquistado, mas haver lutado.
O esporte tem sua glorificação máxima
com a chegada da Olimpíada, cujo ideal é unificar a paz e a união
entre todos os povos do mundo. Como sabemos, porém, a cada ano que passa
tornou-se uma mera máquina de tecnologia, em que atletas são treinados
para ganhar a qualquer custo, mas esquecendo o símbolo que ela representa
que é universalizar culturas e raças para gerarem um momento de
confraternização pacífica, direcionando para a conquista
com dignidade e respeito.
Partindo dessas duas visões descritas, buscamos
em Brotto (1997, p.33) algumas definições sobre competição
e cooperação:
COOPERAÇÃO: é um processo onde os objetivos são
comuns e as ações são benéficas para todos.
COMPETIÇÃO: é um processo onde os objetivos são
comuns, mutuamente exclusivos e as ações são benéficas
somente para alguns.
Neste sentido, podemos constatar que Cooperação
e Competição são processos distintos, porém, não
muito distantes. As fronteiras entre eles são tênues, permitindo
um certo intercâmbio de características, de maneira que podemos
encontrar em algumas ocasiões uma competição cooperativa
e noutras uma cooperação competitiva.
Para Orlick (1989, p.118),
A principal diferença entre cooperação
e competição é que no primeiro todos cooperam e ganham,
eliminando-se o medo do fracasso e aumentando-se a auto-estima e a confiança
em si mesmo. Ao passo que no segundo, a valorização e reforço
são deixados ao acaso ou concedidos apenas ao vencedor, o que gera frustração,
medo e insegurança.
Sendo assim, podemos afirmar que cooperação
e competição são direcionadas a partir de agora em comparações
entre as diferenças e atitudes que essas duas palavras podem tomar:
DIFERENÇAS
Cooperação (aprende-se)
A compartilhar, respeitar
e integrar diferenças;
A conhecer nossos pontos
fracos e fortes;
A ter coragem para assumir
riscos;
Sentimentos e emoções
com liberdade;
A participar com dedicação;
A ser solidário,
criativo e cooperativo;
A ter vontade de estar junto.
Competição (inicia-se)
Com a discriminação
e a violência;
Com o medo de arriscar e
fracassar;
Em fazer por obrigação;
Pela repressão de
sentimentos e emoções;
Pelo egoísmo, individualismo
e competição excessiva.
Vale salientar que não são todas as pessoas
no mundo que agem dessa maneira. Pelo contrário, trabalham, integrando
a cooperação e a competição. O que acontece é que
na maioria das vezes somos dirigidos a pensar que a maneira de competir corretamente é aquela
que precisamos sempre vencer a qualquer custo. Partindo das diferenças
entre cooperar e competir, veremos a seguir alguns tipos de padrões de
atitudes de percepção/ação que vivenciamos no dia-a-dia:
Percepção/ação |
Omissão
(individualismo)
|
Cooperação
(encontro)
|
Competição
(confronto)
|
Visão
do jogo |
Insuficiência
impossível
|
Suficiência
possível
|
Escassez,
exclusão
|
Objetivo |
Ganhar sozinho
|
Ganhar junto
|
Ganhar do outro
|
O
outro |
Quem?
|
Amigo
|
Inimigo
|
Relação |
Cada um na sua
|
Parceria
e confiança
|
Desconfiança
e rivalidade
|
Ação |
Jogar sozinho
Ser jogado
|
Jogar com Troca
e criatividade
|
Jogar contra Rendimento
|
Clima
do jogo |
Monótono
|
Leve e ativo
|
Tenso e pesado
|
Resultado |
Individualismo
|
Compartilhamento
|
Vitória
|
Conseqüência |
Alienação e indiferença
|
Sucesso compartilhado
|
Acabar logo o jogo
|
Motivação |
Isolamento
|
Amor
|
Medo
|
Sentimentos |
Solidão e opressão
|
Alegria,
satisfação
|
Insegurança, frustração
|
Símbolo |
Muralha
|
Ponte
|
Obstáculo
|
O propósito desse quadro é mostrar
que toda e qualquer experiência humana tem diferentes
possibilidades para perceber e optar por alternativas que
propiciam viver uma mesma situação. Com esta
visão, podemos despertar e aperfeiçoar o
exercício da escolha pessoal, com responsabilidade
e liberdade.
Segundo Orlick (1989), como jogamos na sociedade em que
vivemos, o jogo serve para criar o que é refletido. Muitos valores importantes
e modos de comportamento são aprendidos por meio dessa experimentação.
Com base nas falas registradas aqui, os Jogos Cooperativos
têm como conceito procurar a ensinar e aprender a rever nossas experiências
e reciclar pensamentos, sentimentos, intenções e emoções
para que reconheçamos e valorizemos nosso próprio jeito de jogar
e respeitar o dos outros, em seus diferentes modos de ser. E mais, descobrir
que jogando com os outros podemos buscar o crescimento do eu dentro de cada um
de nós.
Apresentamos a seguir a definição do Brotto
(1997 ,p.16):
Os Jogos Cooperativos vêm com a intenção
de compartilhar, unir pessoas, despertar a coragem para correr riscos com pouca
preocupação com o fracasso e sucesso em si mesmo. Eles reforçam
a confiança em si mesmo e nos outros, e todos podem participar autenticamente,
onde ganhar e perder são apenas referências para o contínuo
aperfeiçoamento pessoal e coletivo.
Dentro desta visão, podemos concluir o raciocínio
que os Jogos Cooperativos são uma forma de integrar os valores humanos
e a convivência dos indivíduos no desenvolvimento de uma aprendizagem,
de forma a estar jogando uns com os outros ao invés de uns contra os outros.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
No decorrer deste tema, procuramos evidenciar uma proposta
de educação de ensino e aprendizagem fundamentada nos Pilares da
Educação, em que o jogo possa gerar mudanças nas formas
atuais que estamos jogando e com isso possamos resgatar valores humanos que ajudem
no processo de convivência e construção de uma verdadeira
autonomia de cada ser.
Acreditamos que, para esta realização,
a educação seja um dos caminhos para se obter um melhor resultado,
em que este processo seja permeado de trocas de convivência e reconhecendo
em cada um de nós um estilo de vida, em que o desenvolvimento da cooperação
seja um exercício para tal.
Dessa forma, devemos relacionar educação
como uma forma de existência de uma melhor qualidade de vida, para que
nos próximos anos de nossa existência na terra, possamos continuar
em busca junto com outros o que pode ser chamado, segundo Carmello (2000), de "resignação",
uma capacidade de estarmos sempre retornando e adaptando para melhor sermos entendidos
nessa direção que vai ao encontro do conviver e de ser autônomo.
A pretensão deste artigo é também
um convite que fazemos para que os profissionais, sem distinção,
façam um caminho, partindo com a vontade de experimentar e acreditar nesta
nova aprendizagem em que nós, educadores, sejamos capazes de transmitir
mais do que somente conhecimentos, aproximando mais o professor, aluno, família,
amigos uns dos outros, formando uma grande corrente que não pese, mas
sim, que nos una cada vez mais.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BROTTO, Fábio Otuzi. Jogos cooperativos: se o importante é competir,
o fundamental é cooperar. Santos: Re-novada, 1997.
BROTTO, Fábio Otuzzi. Jogos cooperativos: o jogo e o esporte como
exercício de convivência. Campinas: 1999. Dissertação
(Mestrado) - UNESP.
CARMELLO, Eduardo. O poder da informação intuitiva: como assimilar
informações com rapidez e criatividade. São Paulo: Ed.
Gente, 2000.
DELOURS, Jacques (coord.). Educação: um tesouro a descobrir.
Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação
para o século XXI. 4.ed. São Paulo: Cortez; Brasília/DF:
MEC, UNESCO, 1999.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à pratica
educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FRIEDMANN, Adriana. Brincar: crescer e aprender o resgate do jogo infantil.
São Paulo: Moderna, 1996.
HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. 4.ed. São
Paulo: Perspectiva, 1996.
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento.
4.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
ORLICK, Terry. Vencendo a competição. São Paulo: Círculo
do Livro, 1989.